ENEM 2019 — questão 132 de Física

Enunciado em texto
"Quando se considera a extrema velocidade com que a luz se espalha por todos os lados e que, quando vêm de diferentes lugares, mesmo totalmente opostos, [os raios luminosos] se atravessam uns aos outros sem se atrapalharem, compreende-se que, quando vemos um objeto luminoso, isso não poderia ocorrer pelo transporte de uma matéria que venha do objeto até nós, como uma flecha ou bala atravessa o ar; pois certamente isso repugna bastante a essas duas propriedades da luz, principalmente a última."
HUYGENS, C. In: MARTINS, R. A. Tratado sobre a luz, de Cristian Huygens. Caderno de História e Filosofia da Ciência, supl. 4, 1986.
O texto contesta que concepção acerca do comportamento da luz?
a) O entendimento de que a luz precisa de um meio de propagação, difundido pelos defensores da existência do éter.
b) O modelo ondulatório para a luz, o qual considera a possibilidade de interferência entre feixes luminosos.
c) O modelo corpuscular defendido por Newton, que descreve a luz como um feixe de partículas.
d) A crença na velocidade infinita da luz, defendida pela maioria dos filósofos gregos.
e) A ideia defendida pelos gregos de que a luz era produzida pelos olhos.
Transcrição do enunciado original da prova, reproduzido para fins de estudo. Todos os direitos do enunciado pertencem ao ENEM.
Resolução comentada
Quem escreveu e contra quem. O texto é de Christiaan Huygens, o principal defensor do modelo ondulatório da luz no século XVII. Se ele é o dono da teoria ondulatória, o alvo do ataque só pode ser a teoria rival: o modelo corpuscular, defendido por Isaac Newton, segundo o qual a luz seria um feixe de partículas emitidas pela fonte.
O argumento, na frase decisiva. Huygens escreve que a luz não pode ocorrer "pelo transporte de uma matéria que venha do objeto até nós, como uma flecha ou bala atravessa o ar". A imagem da flecha ou bala é literalmente a descrição de um corpúsculo.
E ele diz qual é a evidência que derruba a ideia: dois feixes vindos de lugares "mesmo totalmente opostos" se atravessam sem se atrapalharem.
• Se a luz fosse feita de partículas viajando, dois feixes cruzados colidiriam — haveria espalhamento, desvio, sombra.
• Se a luz for uma onda, os feixes se superpõem na região comum e seguem adiante inalterados. É exatamente o que o Princípio da Superposição descreve, e é o que se observa.
Por que as outras caem:
• A (necessidade de um meio / éter): Huygens defendia o éter, não o contestava. Sua teoria precisava de um meio para a onda se propagar.
• B (modelo ondulatório): é a teoria dele. Contestar o próprio modelo seria o oposto do texto.
• D (velocidade infinita): o texto abre afirmando a "extrema velocidade" da luz — que é finita, ainda que altíssima. É premissa do argumento, não alvo.
• E (luz produzida pelos olhos): a teoria da emissão visual, de alguns gregos, já estava abandonada muito antes; não é o que o texto discute.
Nota histórica que vale a prova: o prestígio de Newton fez o modelo corpuscular prevalecer por mais de um século. A disputa só virou em 1801, com o experimento da dupla fenda de Thomas Young, que mostrou interferência — algo que só onda faz. E, no século XX, a luz acabou exigindo os dois retratos ao mesmo tempo: a dualidade onda-partícula. Huygens estava certo, mas não sozinho.
A ideia em uma frase: feixes que se cruzam sem se atrapalhar é comportamento de onda, não de projétil — e é esse o golpe de Huygens no modelo corpuscular.
Resposta: alternativa C.
Vídeo em breve
A resolução em vídeo desta questão ainda não foi gravada. A explicação escrita acima está completa, passo a passo. Novos vídeos saem no canal do Professor Filatte.
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