FUVEST 2024 (2ª fase) — questão 5 de Física

DiscursivaEletrostática — átomo de hidrogênio clássico: forças de Coulomb, centro de massa e energia cinética2ª fase · 2º dia · Física (discursiva)
Enunciado — imagem da prova
Enunciado da questão 5 de Física do FUVEST 2024 (2ª fase)

Enunciado em texto

Um período da vida do físico J. Robert Oppenheimer pouco retratado no recente filme Oppenheimer é o seu Doutorado na Alemanha sob a orientação de Max Born. Em 1927, eles publicaram um trabalho muito importante, que se tornaria uma das bases da física atômica e molecular. A chamada Aproximação de Born-Oppenheimer usa o fato de que a massa dos núcleos é muito maior que a massa dos elétrons para justificar um tratamento independente do movimento dos núcleos e o dos elétrons em átomos e moléculas.

Para ilustrar a validade da aproximação, considere um modelo clássico para o átomo de hidrogênio composto de um próton de massa MM e carga +e+e e um elétron de massa mm e carga −e-e separados por uma distância DD, como mostra a figura.

a) Considerando o sistema inicialmente estático, desenhe, na folha de respostas, os vetores das forças elétricas que atuam sobre as duas partículas.

(Figura: à esquerda, uma esfera grande marcada “+”, de massa MM (o próton); à direita, uma esfera pequena marcada “−”, de massa mm (o elétron); uma cota DD indica a distância entre os centros.)

Considere agora que as velocidades das cargas estão sempre em sentidos opostos e perpendiculares à linha que une os seus centros, como mostra a figura. Considere também que a única força que atua sobre as partículas é a força elétrica entre elas, de modo que a quantidade de movimento total (ou momento linear total) do sistema é nula. Considere ainda que ambas as cargas estejam em movimento circular uniforme em torno do centro de massa do sistema, de modo que distância entre as duas partículas não se altere.

(Figura: a esfera MM à esquerda e a esfera mm à direita, ligadas por um segmento de comprimento DD. Sobre MM, um vetor curto V⃗p\vec V_p apontando para cima; sobre mm, um vetor mais comprido v⃗e\vec v_e apontando para baixo, ambos perpendiculares ao segmento.)

b) Sendo M/m=1800M/m = 1800, calcule a razão ΔteΔtp\frac{\Delta t_e}{\Delta t_p} entre os intervalos de tempo que o elétron e o pósitron, respectivamente, levam para percorrer um arco de circunferência de mesmo comprimento Δs\Delta s.

c) Na aproximação de Born-Oppenheimer, pode ser feita a hipótese de que o próton permanece em repouso enquanto o elétron gira em torno dele. Utilizando essa hipótese e supondo ainda que a trajetória do elétron seja uma circunferência de raio DD, calcule a energia cinética do elétron em termos de ee, de DD e da constante eletrostática da Lei de Coulomb k0k_0.

(Figura da folha de respostas, item a: a mesma montagem da primeira figura, com o próton MM (+) à esquerda e o elétron mm (−) à direita, à distância DD.)

(Enunciado e figura: Vestibular FUVEST 2024, 2ª fase — Fuvest/USP.)

Transcrição do enunciado original da prova, reproduzido para fins de estudo. Todos os direitos do enunciado pertencem à FUVEST.

Resolução comentada

O que a questão pede: (a) desenhar as forças elétricas entre próton e elétron; (b) comparar os tempos que elétron e próton levam para percorrer o mesmo arco; (c) a energia cinética do elétron girando em torno de um próton parado.

Atenção: no item (b), o enunciado impresso diz “o elétron e o pósitron”; pelo contexto (o átomo de hidrogênio da figura), a segunda partícula é o próton, e é assim que a questão é resolvida.

Item (a) — atração, ação e reação. Cargas de sinais opostos se atraem. Sobre o próton, a força aponta para o elétron (para a direita); sobre o elétron, a força aponta para o próton (para a esquerda). Pela terceira lei de Newton, as duas têm o mesmo módulo, F=k0e2/D2F = k_0 e^2/D^2, a mesma direção (a reta que une os centros) e sentidos opostos. O desenho que vale a pontuação: duas setas de mesmo comprimento, uma saindo do próton para a direita e outra saindo do elétron para a esquerda, cada uma aplicada na sua partícula (a do próton, F⃗e→p\vec F_{e \to p}, e a do elétron, F⃗p→e\vec F_{p \to e}).

Item (b) — momento total nulo. A quantidade de movimento total é zero, então os momentos das duas partículas têm o mesmo módulo:

M Vp=m ve  ⇒  Vpve=mMM\,V_p = m\,v_e \;\Rightarrow\; \frac{V_p}{v_e} = \frac{m}{M}

Em movimento uniforme, cada uma percorre o arco Δs\Delta s num tempo Δt=Δs/v\Delta t = \Delta s/v:

Δs=ve Δte=Vp Δtp\Delta s = v_e\,\Delta t_e = V_p\,\Delta t_p

ΔteΔtp=Vpve=mM=11800\frac{\Delta t_e}{\Delta t_p} = \frac{V_p}{v_e} = \frac{m}{M} = \frac{1}{1800}

O elétron é 1800 vezes mais rápido: percorre o mesmo arco em 1/1800 do tempo. É essa diferença enorme que justifica a aproximação de Born-Oppenheimer: diante do elétron, o próton está praticamente parado.

Item (c) — a força elétrica é a centrípeta. Com o próton parado, o elétron faz um MCU de raio DD, e a única força sobre ele, a atração de Coulomb, é a resultante centrípeta:

k0 e2D2=m ve2D  ⇒  m ve2=k0 e2D\frac{k_0\,e^2}{D^2} = \frac{m\,v_e^2}{D} \;\Rightarrow\; m\,v_e^2 = \frac{k_0\,e^2}{D}

Ec=12 m ve2=k0 e22DE_c = \frac{1}{2}\,m\,v_e^2 = \frac{k_0\,e^2}{2D}

Conferindo: a energia potencial elétrica do par é −k0e2/D-k_0 e^2/D; a cinética é metade disso em módulo. É o resultado clássico do modelo de Bohr.

⚠️ A armadilha: no item (a), desenhar a força sobre o próton maior (“porque ele tem mais massa”) ou menor (“porque ele quase não se mexe”): as forças são um par ação-reação e têm o mesmo módulo; quem difere é a aceleração. No item (b), inverter a razão e responder 1800: o elétron, mais leve, é o mais rápido e gasta menos tempo.

A ideia em uma frase: a atração entre próton e elétron tem o mesmo módulo nos dois, mas como o momento total é nulo o elétron, 1800 vezes mais leve, anda 1800 vezes mais rápido; e no MCU a força de Coulomb faz o papel de centrípeta, dando Ec=k0e2/2DE_c = k_0 e^2/2D.

Resposta: (a) forças de atração de mesmo módulo k0e2/D2k_0e^2/D^2: no próton, apontando para o elétron; no elétron, apontando para o próton; (b) Δte/Δtp=m/M=1/1800\Delta t_e/\Delta t_p = m/M = 1/1800; (c) Ec=k0e22DE_c = \dfrac{k_0 e^2}{2D}.

Vídeo em breve

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